terça-feira, 27 de outubro de 2009
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Da impenhorabilidade dos túmulos
Caí na asneira de explicar que não é só por razões de sobrevivência do devedor que há bens impenhoráveis. Também existem razões ligadas ao interesse público, aos bons costumes, ao decoro, e exemplifiquei com os túmulos.
Um senhor pouco mais novo do que eu, ainda por cima com idade para ter juízo, saltou da cadeira como se eu tivesse dito a maior bacorada jamais ouvida. Indignado, afirmou:
-Mas os túmulos valem muito dinheiro! Como é que não são penhoráveis? Já viu bem os preços?
-Pois é, mas não são.
-Nunca me passaria pela cabeça. Tem a certeza?
Pacientemente, criei-lhe uma imagem.
-Ó meu caro, imagine uma família inteira de ossadas a ser despejada porque um descendente de quinta ou sexta geração se endividou até ao limite. Mandavam-se as ossadas para a lixeira municipal? Remetia-se tudo para casa do devedor em pacotes etiquetados, ou caixinhas do chinês? E se o devedor estivesse ausente em parte incerta? E os mortos mais recentes?
É certo que o avô do Luís Cardoso, troll amigo cá de casa, foi pela retrete abaixo, mas isso foi por ter sido cremado e a empregada de limpeza achar que a jarra estava cheia de pó.
-Visto desse ponto de vista, é que nunca me tinha ocorrido...e ficou com o olhar parado no infinito.
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Túmulos
Até fiquei gaga com estes nichos de mercado por explorar.
Afinal, a gaguez, que afecta cerca de 100.000 portugueses, fora os que não assumem, tem como única causa não haver gente competente para tratar o problema. Só está desempregado quem quer. Gagos não faltam , à sua espera.
Já agora, também é de ponderar a criação de uma nano-micro empresa de desinfectante contra a gripe A. Já viram o preço dos pacotes de lenços de papel ou do gel na bomba de gasolina?
Associado, está o sucesso das luvas e papel à disposição de qualquer tipo que mete gasóleo ou gasolina. Saphou a meter gasóleo é um filme com casa cheia garantida. Não é um filme gago, mas é um filme sobre uma hipocondríaca a passos largos para ficar gágá.
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Nichos de mercado
Não me mintas
Jaime - Um filme no Porto
Eu queria unir as pedras desavindas
escoras do meu mundo movediço
aquelas duas pedras perfeitas e lindas
das quais eu nasci forte e inteiriço
Eu queria ter amarra nesse cais
para quando o mar ameaça a minha proa
e queria vencer todos os vendavais
que se erguem quando o diabo se assoa
Põe aqui a mão e sente o deserto
Tão cheio de culpas que não são minhas
E ainda que nada à volta, bata certo
eu juro ganhar o jogo sem espinhas
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Nikes fazem voar
Esaú e Jacó
Brincavam juntos, riam e, principalmente, contrapunham-se.
O outro dizia que tinha poderes e era mágico, ele era humilde e obedecia às exigências dos pais, que renegavam o outro, não o ouviam, nunca o viram, recusavam-se a servir-lhe um prato à mesa, a dar-lhe um brinquedo, destituindo-o de ser filho também.
Não há pais de filhos únicos, há pais de filhos que geram os seus próprios irmãos, não há nesta gravidez qualquer incesto físico.
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originalidade
domingo, 25 de outubro de 2009
Mentirosos. Portugal não tem 159 espécies em risco de extinção.
Tem 160, pelo menos. Lembram-se do lince ibérico e dos caracóis da Madeira e dos Açores, talvez até das cagarras e do mosquito-finge-que-pica, mas esquecem a espécie Saphou, de que existem raríssimos exemplares e não se reproduz em cativeiro. Está completamente votada ao abandono.
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Animais em risco de extinção
As últimas fantasias sexuais de um homem
Pssssst pessoal, cheguem aqui por favor:
o novo livro do Saramago é sobre sexo, orgias diárias tendo por personagens os homens e as mulheres das parábolas. Incesto, filhas histéricas que "amarram" o pai, Job, Caim, Abel ...
Um retrato de mulheres deseperadas por sexo e de meia duzia de homens incapazes de as satisfazer.
Das passagens que li, considerei umas mais medonhas que outras, definitivamente, gosto de fantasias com gajas mais modernas depiladas, fiquei enojado.
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Fuck off. I'm bored
Então o padre de Covas de Barroso, em Boticas,
é gangster nas horas vagas? Já nem o clero escapa. Enquanto celebrava a missa, tinha a fusca debaixo do paramento, à cautela; obtinha as confissões à bala; pescava na base da explosão das bogas e taínhas... eu sei lá. Ou será um terrorista infiltrado? Mais um pobre desesperado? Um erro de vocação? Está tudo em aberto, aqui, neste jornal de referência. O apelido aponta para o carácter bélico do padre, de nome Fernando Guerra.
Mas era escusado prender o pároco em plena sacristia, a seguir à missa, perante o espanto dos crentes. Haja decência, haja pudor! A GNR podia muito bem prender o sacerdote na calada da noite, no conforto do lar.
....
Tanto espalhafate para lhe ser aplicada a medida de coacção mais banal: termo de identidade e residência. Para isso, nem valia a pena ter aprisionado, de forma ignóbil, o Senhor Padre Guerra. Ora, ora...
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O clero e a criminalidade violenta
Reparem nesta notícia, infeliz, desde logo, pela causa que a originou; desejamos as rápidas melhoras à Senhora Roberta McCain
Norte-americanos retiraram bagagem de hotel Borges, onde mãe de Senador do Arizona esteve hospedada
Roberta McCain, mãe do último candidato republicano à Casa Branca, permanece internada no Hospital de São José, após ter desmaiado na Baixa de Lisboa e ter sofrido ferimentos na cabeça.
“A doente encontra-se em situação clínica estável e sob vigilância”, divulgou ontem fonte do gabinete de Comunicação do hospital, onde a idosa, de 97 anos, deu entrada quinta-feira.
Sozinha em Lisboa, Roberta aguarda alta hospitalar para regressar aos Estados Unidos com a nora, Cindy McCain. O senador do Arizona, John McCain, falou, entretanto, com a mãe, informando que se encontra bem. Roberta McCain não chegou a dormir no Hotel Borges onde reservou uma noite. Pessoal da embaixada norte-americana formalizou, entretanto, a saída do hotel.
...
-..."ontem", não devia estar entre vírgulas?
-Ou é Gabinete de Comunicação, ou gabinete de comunicação; Gabinete de comunicação, ou gabinete de Comunicação, não dá! Já para não mencionar hospital; não deveria ser Hospital?
...
-Não entendemos a contradição do terceiro parágrafo. Se está sozinha, não está com a nora Cindy McCain. Ou a nora comporta-se de tal forma que é como se não estivesse cá? Que saibamos, a notícia não critica o comportamento da exemplar Cindy McCain. Ou Cindy McCain não está cá e só se mete no avião quando a Senhora estiver à porta do hospital com ordem de despejo?
-Não entendemos a contradição do terceiro parágrafo. Se está sozinha, não está com a nora Cindy McCain. Ou a nora comporta-se de tal forma que é como se não estivesse cá? Que saibamos, a notícia não critica o comportamento da exemplar Cindy McCain. Ou Cindy McCain não está cá e só se mete no avião quando a Senhora estiver à porta do hospital com ordem de despejo?
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- Na frase seguinte, quem é que informou que se encontra bem? Não deveria ser a Senhora Roberta McCain? Se foi John McCain, como decorre do texto, informou quem? O infeliz que escreveu?
- Na frase seguinte, quem é que informou que se encontra bem? Não deveria ser a Senhora Roberta McCain? Se foi John McCain, como decorre do texto, informou quem? O infeliz que escreveu?
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-Se a Senhora está internada, é natural que não tenha pernoitado no hotel, uma vez que não tem o dom da ubiquidade. Mas no título diz-se que esteve hospedada! Só se fez o check in e se estatelou de seguida, o que é uma hipótese a considerar. Mas o texto é omisso.
...
E por falar no título, não era aí que deveriam mencionar o nome de John McCain? Parece um livro polícial rasca, ainda por cima de meia dúzia de linhas, uma vez que todos sabem, desde o início do texto, de que se está a falar a mãe dele, famoso cá não por ser "Senador do Arizona", mas por ter perdido com Obama nas últimas eleições e pela forma exemplar como sempre se comportou durante a campanha e após de ter perdido.
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-A retirada da bagagem, pomposamente,"de hotel Borges" parece ser o mais importante no meio disto tudo, atendendo ao título. Não esquecendo que a pompa do "de" é arruinada pelo facto de "hotel" vir em minúsculas.
Os norte-americanos que tiraram a bagagem, afinal, são gente da Embaixada. E tiraram a bagagenm,"de hotel Borges" porquê? Recorde-se que, em versão anterior, a Senhora teria caído à saída do hotel, o que deixava em aberto um eventual desleixo do pessoal.
Aqui há manipulação de informação ou, melhor dito, aqui há marosca. Afinal, "hotel Borges" é fantástico, ou tem responsabilidades no caso? Será que esta notícia se baseia num e-mail de fonte que quer dar cabo da reputação "de hotel Borges"? Ou é mera coincidência?
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E isto de deixar uma Senhora de 97 anos viajar para Portugal sozinha e andar sozinha na Baixa esburacada, sebenta e perigosa de Lisboa configura, no mínimo, negligência grosseira. Por muito aventureira que seja a matriarca McCain e por muito que goste de viajar. Querem ver que também alguma fonte anónima quer tramar a reputação impoluta, até agora, dos McCain? Nem um guarda-costas a acompanhar a Senhora, nem uma amiga robusta? Nem a irmã gémea, companheira habitual? Sabe-se como a Roberta McCain é teimosa, mas podia ser protegida discretamente.
...
Por fim, porque é que não enviam um avião particular, com todo o equipamento médico necessário, e não levam a Senhora para um hospital top de gama nos EUA ou, pelo menos, top de gama em Portugal ou Espanha? Mesmo em Lisboa poder-se-ia arranjar melhor. A família é conservadora e rica, please! Não se deviam misturar com a populaça. Para as suspeitas não recaírem sobre os McCain, alguém deveria fazer um comunicado a dizer que a Senhora não pode ser transportada. Mas, se for assim, então o caso já é suficientemente grave para o filho se meter num avião particular ou alugado e fazer o sacrifício de descer à imundície do cu da Europa. Preso por ter cão e preso por não ter. Ou será que a Senhora Roberta McCain, a matriarca, que sobreviveu até aos 97 anos de idade, é considerada pela família um estafermo tal que merece ser deixada ao abandono, sozinha, num hospital público nacional? Não cremos.
PS: não deixo de registar a forretice da Senhora, que fica hospedada num hotel de 3 estrelas.
sábado, 24 de outubro de 2009
Livros de Auto-ajuda
Não são recomendáveis.
São altamente eficientes.
Quando bem interiorizados, transmitem a sabedoria necessária para se atingir os objectivos profundamente delineados, sem considerar o esforço.
Com este conhecimento, o leitor pode perfeitamente conseguir uma vida estável, casando com um idoso acamado, mas ver a coisa pela positiva, aprender a focar-se no BMW preto.
Estava à espera do amarelo? A BMW nunca venderia um carro amarelo, é preciso sonhar decentemente para que o mundo não nos acorde para a realidade. Não há BMW amarelos, ponto.
- Já reflectiu a sorte que tem em ter um BMW? Já pensou que neste momento há homens a circular em Pandas?
- Já reflectiu a sorte que tem em ter um BMW? Já pensou que neste momento há homens a circular em Pandas?
Os livros de auto-ajuda acordam as pessoas com capacidades adormecidas, tudo com meia dúzia de verdades cruas e duras. E resulta, porque nos tempos que correm há muita gente que anda dormir, sobretudo nos autocarros e no metro e, muitas vezes, no IC1. Pessoas que têm as capacidades de tal maneira adormecidas que queimam o tacho. Os livros de auto-ajuda chamam a atenção sobre estes pormenores simples e muitas vezes subestimados.
Deus o livre, caro leitor, de deparar com um leitor esclarecido nos livros de auto-ajuda, ele emana um poder tal de positivismo, que pode acabar empenhado na tarefa de o ajudar a cumprir os seus objectivos, por exemplo, promovendo-o a seu conselheiro, quando você trabalha numa padaria.
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auto-ajuda
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Conto de sexta-feira : " A senhora"
Entraram no café, o único que permitia fumadores. Na mesa do canto, em frente à montra, uma senhora de olhos azuis, com os seus 80 anos, cabelo ripado num carrapito, fumava um cigarro e observava o movimento da rua, parecendo não prestar atenção ao galão que tinha na mesa.
Ana estremeceu, pensou que aquela senhora tinha estranhas semelhanças com ela própria, apesar de entre elas haver, no mínimo, 40 anos de diferença. Pediu o café, a senhora da mesa do canto encarou-a com um sorriso e disse-lhe:
- Muito bom dia, como está?
Ana devolveu o cumprimento e o sorriso cúmplice, na sua cabeça continuava a ideia de que a sua velhice poderia ser parecida com a daquela senhora de cabelo branco ripado, sentada na mesa do canto.
A Rita estava entusiasmada com a sua nova prova de aferição a um cargo superior, no ano passado tinha ficado à porta, no 3 lugar, não era o cargo que a entusiasmava, mas a hipótese de através dele poder voltar ao Porto. Falava depressa, todos os minutos contavam, na Segunda-feira teria de voltar para Lisboa, onde não tinha tempo para nada, embora passasse os fins-de-semana em festas atestadas de álcool e, mesmo ali, com as amigas de sempre, já tinha bebido 3 finos. O que era pouco, para aquilo que ultimamente a Rita bebia, a tarde estava ainda no início, sabiam que à noite sim, Ana esgotaria o vodka, e as amigas zombando inchariam o fígado com cerveja, nas habituais conversas até às 6 da manhã, libertas de homens e algumas sujeitas a grandes discussões à chegada a casa, mas era um mal cada vez menor, nada podia pagar aqueles momentos de liberdade. Rita continuava sózinha, sem esse tipo de preocupação. Lisboa tinha-lhe mostrado que o Rodrigo não era homem para ela e, de facto, não era, mas Rita nunca escolhia bem os seus homens.
Lisboa tinha-lhe ensinado a liberdade, que há muito todas tinham perdido, e trouxe a liberdade às amigas e deu-lha assim, como quem dá tudo aquilo que tem e fica cheio só com isso.
A Rita e a Ana tinham estabelecido os seus ideais de vida juntas, de uma forma ou de outra estariam unidas, nem que fosse só no fim. Juntas tentavam moldar o pessimismo da Marta, zangada muitas vezes com o que vida lhe deu, incapaz de reconhecer os seus valores intrínsecos, tinha-se refugiado na igreja, no filho, na família que já não suportava. Era mais velha, ria-se do entusiasmo, contrapunha as ideias, estava quase sempre triste e quando distraída, os olhos ficavam-lhe desanexados, perdidos na escuridão do seu castanho profundo. Em casa já tinha conseguido a indiferença e, ao contrário de Otília, não era insultada por ter passado a noite com as amigas, deixando o filho com o marido. Chegaria a casa, dormiria e ele sairia para um qualquer compromisso, deixando-a a ressacar a sós, sem a incomodar alapado no sofá, condicionando-lhe os movimentos.
Otília, por seu turno, chegada a casa viveria o inferno de sempre, provavelmente teria até o fecho de segurança corrido. Por sua causa, muitas vezes madrugavam na pastelaria, ainda bêbadas e sonâmbulas, para que ela não tivesse que esperar no patamar a abertura da porta da sua própria casa.
Aquelas noites eram um peso e uma consolação. Ali hipotecavam o seu mundo e não faziam grande sentido aquelas bebedeiras, mas eram tão importantes nas suas vidas, que quando se separavam como amantes, remoíam as conversas, trocavam e-mails e, sobretudo, compravam novos livros.
Otília contava os insultos de que tinha sido alvo, diga-se que ou ela já não os ouvia ou eles tinham diminuído. O que é facto é que o marido a acusava do mesmo crime, que ela pensava que ele praticava, embora nenhum dos dois tivesse a menor prova disso.
Estava a escurecer, a mãe de Rita faria o jantar com as compras que ela tinha feito e cujo custo seria dividido irmãmente. Depois deixaria as amigas a sós.
A senhora da mesa levantou-se, pôs a mão sobre o ombro da Ana e disse:
- Boa tarde, foi um prazer vê-la. Até sempre.
Ana voltou a responder de forma automática e, enquanto via a senhora de cabelo branco ripado desaparecer ao cimo de rua, perguntou às amigas quem era tão ilustre figura. Nenhuma delas a conhecia, nem sequer a tinham visto antes, pensavam que seria conhecida de Ana e, atendendo às semelhanças, que até fosse da sua família e por isso também lhe tinham desejado um resto de boa tarde, em coro.
Ana estremeceu, pensou que aquela senhora tinha estranhas semelhanças com ela própria, apesar de entre elas haver, no mínimo, 40 anos de diferença. Pediu o café, a senhora da mesa do canto encarou-a com um sorriso e disse-lhe:
- Muito bom dia, como está?
Ana devolveu o cumprimento e o sorriso cúmplice, na sua cabeça continuava a ideia de que a sua velhice poderia ser parecida com a daquela senhora de cabelo branco ripado, sentada na mesa do canto.
A Rita estava entusiasmada com a sua nova prova de aferição a um cargo superior, no ano passado tinha ficado à porta, no 3 lugar, não era o cargo que a entusiasmava, mas a hipótese de através dele poder voltar ao Porto. Falava depressa, todos os minutos contavam, na Segunda-feira teria de voltar para Lisboa, onde não tinha tempo para nada, embora passasse os fins-de-semana em festas atestadas de álcool e, mesmo ali, com as amigas de sempre, já tinha bebido 3 finos. O que era pouco, para aquilo que ultimamente a Rita bebia, a tarde estava ainda no início, sabiam que à noite sim, Ana esgotaria o vodka, e as amigas zombando inchariam o fígado com cerveja, nas habituais conversas até às 6 da manhã, libertas de homens e algumas sujeitas a grandes discussões à chegada a casa, mas era um mal cada vez menor, nada podia pagar aqueles momentos de liberdade. Rita continuava sózinha, sem esse tipo de preocupação. Lisboa tinha-lhe mostrado que o Rodrigo não era homem para ela e, de facto, não era, mas Rita nunca escolhia bem os seus homens.
Lisboa tinha-lhe ensinado a liberdade, que há muito todas tinham perdido, e trouxe a liberdade às amigas e deu-lha assim, como quem dá tudo aquilo que tem e fica cheio só com isso.
A Rita e a Ana tinham estabelecido os seus ideais de vida juntas, de uma forma ou de outra estariam unidas, nem que fosse só no fim. Juntas tentavam moldar o pessimismo da Marta, zangada muitas vezes com o que vida lhe deu, incapaz de reconhecer os seus valores intrínsecos, tinha-se refugiado na igreja, no filho, na família que já não suportava. Era mais velha, ria-se do entusiasmo, contrapunha as ideias, estava quase sempre triste e quando distraída, os olhos ficavam-lhe desanexados, perdidos na escuridão do seu castanho profundo. Em casa já tinha conseguido a indiferença e, ao contrário de Otília, não era insultada por ter passado a noite com as amigas, deixando o filho com o marido. Chegaria a casa, dormiria e ele sairia para um qualquer compromisso, deixando-a a ressacar a sós, sem a incomodar alapado no sofá, condicionando-lhe os movimentos.
Otília, por seu turno, chegada a casa viveria o inferno de sempre, provavelmente teria até o fecho de segurança corrido. Por sua causa, muitas vezes madrugavam na pastelaria, ainda bêbadas e sonâmbulas, para que ela não tivesse que esperar no patamar a abertura da porta da sua própria casa.
Aquelas noites eram um peso e uma consolação. Ali hipotecavam o seu mundo e não faziam grande sentido aquelas bebedeiras, mas eram tão importantes nas suas vidas, que quando se separavam como amantes, remoíam as conversas, trocavam e-mails e, sobretudo, compravam novos livros.
Otília contava os insultos de que tinha sido alvo, diga-se que ou ela já não os ouvia ou eles tinham diminuído. O que é facto é que o marido a acusava do mesmo crime, que ela pensava que ele praticava, embora nenhum dos dois tivesse a menor prova disso.
Estava a escurecer, a mãe de Rita faria o jantar com as compras que ela tinha feito e cujo custo seria dividido irmãmente. Depois deixaria as amigas a sós.
A senhora da mesa levantou-se, pôs a mão sobre o ombro da Ana e disse:
- Boa tarde, foi um prazer vê-la. Até sempre.
Ana voltou a responder de forma automática e, enquanto via a senhora de cabelo branco ripado desaparecer ao cimo de rua, perguntou às amigas quem era tão ilustre figura. Nenhuma delas a conhecia, nem sequer a tinham visto antes, pensavam que seria conhecida de Ana e, atendendo às semelhanças, que até fosse da sua família e por isso também lhe tinham desejado um resto de boa tarde, em coro.
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conto à sexta-feira
António Augusto de Ascenção Mendonça
Vou aproveitar para me corresponder com ele, enquanto é só indigitado. Por mim, pode mandar construir 6 auto-estradas a ligar Porto a Lisboa, 10 TGVs e 20 aeroportos. Não me tirem este pão do governo. E ai da Ministra da Educação se lhe dá para escrever "Uma Aventura na Obra".
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Com a nova ministra da educação, este é um livro de leitura obrigatória
Este e toda a colecção "Uma Aventura", que a Ministra não vai brincar em serviço. O próximo livro, já no prelo, será: "Uma Aventura num Governo de Rotos e Remendados".
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Isabel Alçada
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