domingo, 12 de abril de 2009

O almoço

Estava a família mais próxima toda reunida. Paterna e materna. A avó Rita fizera aquela carne assada com batatinhas redondas pequeninas. Já tinha saudades de cozinhar. O avô Manuel dizia mal da televisão. O pai estava à cabeceira da mesa. A avó Rita olhava embevecida para o seu único filho. Já não o tinha perto há uns cinco anos e tinha-o visto sofrer tanto, sem nada poder fazer... -"Come mais um bocadinho. Está bom?". -"Está mãe, como sempre. Passas-me a salada?". Tinha que o consolar, como fazia quando ele era menino e ficou gravemente doente, com a doença que o havia de marcar a vida toda.
A tia avó estava atarefada a conversar com o pai. Retirava à avó o protagonismo, o que lhe causava irritação compensada com mais oferta de comida. Agora era o arroz branco. A bisavó não parava de olhar para o pai, neto único. Isto, apesar de ter todos os filhos à mesa. O marido não tinha direito a sentar-se, batia à porta desesperado, mas ninguém lhe ligava. Não tivesse ido para o Brasil, sem nunca mais dar notícias, deixando a bisavó paterna sozinha com o encargo de criar os três filhos.
Até o primo Américo, recém-chegado, tinha sido convidado para o almoço pascal.
A avó Joaquina estava mesmo em frente, com aquele sorriso igual ao da santa que estava na capela da Sobreira do lado direito, quem olhava para o altar. O avô José estava com os olhos daquele azul mais forte do que todos os azuis cheios de água. Emocionava-se com a música de Rodrigo Leão. Nunca tinha ouvido. A avó Joaquina tinha uma felicidade que nunca lhe conhecera em vida. De certeza que era por estar de mão dada com o seu filho muito querido, o tio Manuel, que nunca conhecera, por ter morrido no início da adolescência, com as cerejas quentes de Maio, comidas da árvore do veneno. Era, de facto, de uma beleza invulgar, como todos diziam. Loiro e já alto, com os olhos verdes escuros, um menino em que se adivinhava o homem que nunca surgiu.
Ela estava ali com todos eles, no almoço dos outros. Estranhamente, pareciam ignorá-la.

5 comentários:

100anos disse...

Nas famílias grandes há sempre umas quantas pessoas que não se sentem integradas - por vezes não estão mesmo integradas - no ambiente.
A minha sugestão: não ligue.
Eu quando apanho situações dessas escapo-me logo que for decentemente possível.
Em casos extremos alego que tenho entre mãos uma questão muito complicada que requer a minha atenção de imediato, sem, evidentemente, entrar em pormenores sobre a referida questão.

mac disse...

Saphou...

Mofina Mendes disse...

Mas ela estava entre vós! A Saphou não duvidou disso, pois não?

patricia m. disse...

Gostei da cronica! Saphou, voce esta ficando quase tao boa quanto o Funes! Que ele nao leia isso, claro, senao ficara mortalmente ofendido ;-)

Para supera-lo, recomendo que coloque a imaginacao a funcionar para criar um daqueles contos de literatura fantastica dele...

Blimunda disse...

Não seria assim tão estranhamente Saphou! Ela estava lá a mais! E o facto de todos os outros a ignorarem deveria ter servido de um alerta! Ninguém tem o direito de ocupar um espaço que não é seu. Provavelmente ela ter-se-á inflitrado no almoço sem convite e sabe como é? A casamentos e baptizados só vão os convidados!