Por volta do meio-dia principiava os preparativos para o grandioso almoço a dois. Sabia fazer pratos típicos dos melhores países da Europa e todos incluíam bifes, ovos e batatas fritas. Para o francês cortava as batatas em rodelas e fritava uma a uma, para o Espanhol passava o bife duas vezes no óleo, para o Português enchia o prato por camadas. Sentava o neto no banco de pau, atavam um guardanapo branco ao pescoço e, como se fosse um banquete, comiam por horas a fio, pelo menos o número de horas suficientes para esgotar a garrafa. Para entreter o neto contava historias, histórias da família, histórias de Salazar e, sobretudo, histórias do Porto.
Na sua mente quixotada, até o Mesinha de Cabeceira, que media metro e meio e tinha voltado do Ultramar manco, era um herói tripeiro de gema, que tinha derrotado com uma vara três Mouros que em São Bento o defrontaram para lhe roubar 100 escudos.
- No Porto casou a rainha Filipa de Lencastre, para dar vida à “ínclita” geração, o nosso grande Infante D. Henrique, que organizou com a gente do Norte a expedição para a conquista de Ceuta.
– E conquistaram Ceuta?
- Conquistaram, meu filho, o Porto deu a carne e ficou com as tripas para que isso fosse possível.
- E depois?
- E depois o que?
- Depois o Porto ficou rico, não?
- Rico?
- O que é que o Infante trouxe de Ceuta para o Porto? Castelos, jóias…
- Meu filho, o Porto não é de castelos, é de muralhas, da liberdade. D. Pedro deu-nos o coração…
O neto já sabia a história de cor e salteado, gostava era que o avô inventasse finais perfeitos, o que ele fazia com entusiasmo, não se impedindo dos maiores dislates que faziam das gentes do Porto libertários, poetas, heróis até no jogo da lerpa quando defrontados com Mouros.
Ao fim da tarde passeavam e todas as ruas tinham algo de surreal, desde os crimes sempre em nome da justiça e da liberdade, até actos de pura misericórdia que o Porto fazia pelo país. Quando as histórias eram porcas e envolviam penicos despejados pelas janelas, eram piadolas à Porto, mas sem sotaque, porque o sotaque do Porto não existia senão nos bacalhoeiros e outros pregadores. Os amigos, que iam encontrando pelo caminho, eram todos protagonistas de casos tristes, grandiosos ou mirabolantes, certo é que no Porto todos se conheciam, todos tinham um passado. Do futuro do Porto o avô não falava.
Ajeitava a sua boina à taxista, por causa do frio na careca, comprava ao neto livros do Patinhas e bolas de Berlim. No Águia de Ouro, no Progresso, no Brasileira paravam em todos e em todos ele conversava, não gostava de futebol, só politica, levava o neto para comícios e muitas vezes o sentou na mesa de futuros lideres, a comer como um homem do Porto, tens que acreditar - dizia.
Os outros membros da família criticavam a situação, o avô iria traumatizar o neto, com tanta história de batalhas e crucifixos, mentiras e balelas, politiquices, fé dos falsos diziam, enquanto ele piscava o olho ao educando, o seu suposto anjo da redenção. Acusavam-no de ter uma mulher em cada esquina. Pelo que o neto via, tratava-as bem, mas gostava de conversar com homens e mulheres que fumam em cafés eram perigosas e nada havia de mais pervertido e drástico para a sociedade do que sexo, esse amor fácil da geração dos teus pais, uns trastes, meu filho, sem ideias.
Antes de morrer, já mais manco que o Mesinha, meteu o neto no Mercedes, conduziu pelos passeios com a muleta presa ao acelerador, para não congestionar o trânsito, foram a Viana visitar um velho amigo, com quem conversou largas horas.
No regresso passou no IPO para preencher uma papelada, era respeitado por todos, pareciam conhece-lo de há muito tempo, tinha um cartão de acesso e tudo. O neto não suspeitava o que seria aquela visita, era normal o avô visitar hospitais, era hipocondríaco, diziam lá em casa.
Na semana seguinte, foi internado. O neto foi vê-lo, o homem das histórias continuava a sorrir, entubado, parecia um globo de tão inchado. Chamou o neto e sussurrou-lhe ao ouvido qualquer coisa que o neto não percebeu, enquanto à avó chorava, fez-lhe como habitual uma cruz da testa ao peito em gesto de carícia, não disse como de costume - Deus te abençoe sempre, meu filho.
Morreu na manhã seguinte e na noite do funeral, tal como toda a vida tinha garantido, a terra tremeu. A família gritou e pediu para que os deixasse em paz ao menos na morte. O neto riu e piscou o olho às cortinas que esvoaçavam.
No último sonho, passados dois anos, o avô levou-o pela ribeira num passeio frenético, uma Ribeira suja, pobre e escura, e mandou-o comprar chiclas. Foi a última vez que o neto o viu, assim de forma inteira e composta.
O sorriso e a mão a segurar a pala da boina, naquele ar de casanova o – Até sempre – dito com alegria, está sempre no canto do tecto de qualquer casa do Porto, com tectos de estuque e roda –pés de madeira, que até as casas do pobres têm, meu filho, porque nas casas do Porto há vidas heróicas à deriva e o Porto, o Porto, nunca se acaba, nunca se descobre o quanto vai longe a liberdade dos homens.




Falcao
